Do encantamento de Kafka e Weerasethakul

Ontem, depois de ver Tropical Malady, e apesar do adiantado da hora, ainda tive de ler mais umas páginas de Franz Kafka – neste caso, o conto “Investigations of a Dog”. A leitura de Kafka (antes deste conto li “The Great Wall of China”) está a provocar-me qualquer coisa que um livro não me provocava há muito tempo. O último livro que li compulsivamente foi o Hotel Memória, de João Tordo. E o último livro que achei genial foi o 2666, de Roberto Bolaño. No caso do Tordo, a leitura compulsiva não está relacionada com a genialidade do livro (ok, a escrita não desilude, a história é interessante, mantém o leitor preso àquilo, mas falta-lhe muito para ser um grande livro, e muito mais para ser um livro de génio); e no caso do Bolaño, a genialidade do livro não provoca a leitura compulsiva. Aliás, foram longos meses na companhia das mais de mil páginas de 2666.

Com estes contos de Kafka (o livro abre com a Metamorphosis, que eu passei à frente porque já tinha lido) está a dar-se a junção das duas coisas. A constatação do génio aliada à incapacidade de largar o livro. Desde que tenho um iPod (há coisa de dois meses, talvez) que não lia no metro. Kafka fez-me deixar o iPod em casa e aproveitar os dez minutos de viagem até ao trabalho para ler mais três páginas que fossem.

Falei no início em Tropical Malady, de Apichatpong Weerasethakul (o tipo que ganhou a palma de ouro em Cannes, este ano, com o filme Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, que aguardo com elevada expectativa), porque o filme me guiou num estado semelhante ao da leitura daqueles dois contos de Kafka. Sobretudo na segunda parte, em que acompanhamos um soldado tailandês perdido na selva em busca de um xamã que se consegue transformar em qualquer criatura – um monstro que atormenta as aldeias e os viajantes que ousam entrar na selva.

Esta parte do filme, onde a voz humana praticamente não entra, onde só se ouvem os barulhos da natureza – a água, os insectos, as folhas cedendo debaixo dos pés do soldado – tem um tom encantatório, pertence a outro mundo. É como um ritual de iniciação – belíssimo, assustador e perigoso – do qual sabemos não haver regresso.

E é esse tipo de encantamento que existe na leitura de Kafka. Como se lêssemos um texto sagrado.

Talvez esta associação nunca me viesse a ocorrer se não tivesse visto o filme a meio da leitura destes contos do escritor checo. Afinal de contas, são objectos artísticos bastante diferentes entre si. Mas do mesmo modo que em Tropical Malady há dois mundos muito distintos, mas que não vivem um sem o outro (pois se assim fosse, Tropical Malady teria de ser dois filmes, separando as duas partes e não as colocando em relação), em Kafka a leitura nunca se esgota naquilo que lá está escrito, nunca é só o que aparenta ser.

Por Gonçalo Mira

Editor da revista Mamute. Crítico literário no Público. Podcaster em hibernação.