Precisamente por isso

Tirando o drama da perspectiva do desemprego (já está tudo bem, voltei a ser livreiro), o que mais me chateou quando saí da editora onde trabalhava foi deixar de ter um scanner para digitalizar as capas dos livros que ando a ler. Assim, não posso colocar aqui uma imagem decente da capa de Bartleby & Companhia, de Enrique Vila-Matas, edição Assírio & Alvim. Claro que há imagens pela Internet, mas são todas demasiado pequenas e, como o Bartleby de Melville, perante a possibilidade de aqui colocar uma imagem com péssima qualidade, “prefiro não o fazer”. Tirando este senão, foi óptimo sair daquele escritório depressivo.

Estou a ler este livro porque não posso comprar o que queria mesmo ler: Paris Nunca Se Acaba, do mesmo autor. Não porque ache que Paris Nunca Se Acaba é melhor, mas porque gostava de o ler antes de ir a Paris (o que está para muito breve). Pior ou melhor, a verdade é que Bartleby e Companhia é muito bom e muito adequado a alguém como eu. É um livro sobre escritores com o complexo de Bartleby, isto é, que, apesar de serem muito bons (ou potencialmente muito bons), a dada altura, perante a possibilidade de escreverem, preferiram não o fazer. Neste leque encontram-se alguns dos meus mais queridos autores, como Juan Rulfo e J. D. Salinger. Mas não é só por falar de autores que aprecio que o livro é indicado para mim: é porque também eu sou uma espécie de Bartleby. Prefiro não o fazer. Ou melhor: não sou capaz de preferir fazê-lo.

Logo no início do livro, diz-se isto: “Há algum tempo que persigo (…) a pulsão negativa ou a atracção pelo nada que faz que certos criadores, embora tendo uma consciência literária muito exigente (ou talvez precisamente por isso) nunca cheguem a escrever”. Ignoremos os problemas gramaticais desta frase (eu transcrevi-a sem os corrigir). O que mais me interessa aqui é precisamente o que vem dentro de parênteses. É a consciência literária muito exigente que lixa tudo. Porque quando uma pessoa tem uma consciência literária pouco exigente, ou não a tem de todo, escrever deve ser muito fácil. Claro que continua a roubar horas a outras actividades, mas é muito menos esgotante do que o é para alguém com a tal consciência.

Isto ocorreu-me uns dias antes de ter começado a ler este livro, ao ler alguns manuscritos de autores portugueses enviados para uma editora para a qual faço leituras (a ideia é eu fazer uma leitura e um relatório explicando se o manuscrito deve ou não ser publicado e porquê). Dos quatro manuscritos que li (cinco, se incluirmos um que já tinha lido na editora onde trabalhei), sabem quantos eram maus? Todos. E quando tentei perceber o que os ligava (porque, apesar de maus, eram todos diferentes entre si), percebi que era a tal consciência literária do seu autor: pouco exigente ou inexistente. É por isso que esta gente consegue, sem grande pesar, roubar horas a outras actividades para escrever trezentas páginas de lixo. Porque, muito simplesmente, não têm consciência de que estão a produzir lixo.

A parte mais lixada desta reflexão é chegar ao ponto em que tenho de perguntar: então como é que se dá a volta à consciência literária muito exigente? Será que quero que ela seja menos exigente? Não. Então como é que se contorna o bloqueio da criação quando somos demasiado exigentes e, quase de certeza, nunca produziremos nada que satisfaça o nosso grau de exigência? Vou pensar no assunto. Por agora, a única resposta que tenho é esta: estou fodido.

Por Gonçalo Mira

Editor da revista Mamute. Crítico literário no Público. Podcaster em hibernação.