Nenhuma das duas

Há bocado senti uma vontade absurda de escrever ficção. Já passaram uns meses desde a última vez que o fiz. O último conto que terminei não passou ainda de primeiro rascunho. Ainda não tive coragem de lhe pegar e enfrentar as imperfeições. Há já muito tempo que percebi que a minha imaginação é fértil quando se trata de arranjar entraves à produtividade. Neste momento, sinto que o que mais me impede de pegar neste conto e começar a corrigi-lo é eu ter, em relação ao momento em que o escrevi, mais bagagem teórica sobre como se constrói um conto. Ou seja, o que me está a impedir de trabalhar no texto é eu até saber umas coisas sobre o assunto. E, no fundo, ter medo de as pôr em prática. Vai exigir muitas alterações, muita reescrita, muitos cortes. Muito trabalho.

No entanto, a primeira coisa que me veio à cabeça quando senti aquela vontade de escrever não foi pegar neste conto. Foi começar qualquer coisa nova. O que me impediu foi uma desculpa recorrente na minha vida (e não só não escrita). Não comecei a escrever um conto novo porque me vieram à cabeça os três ou quatro que tenho começados e pendentes. Senti que seria uma injustiça para estes últimos. Mas como não me apetecia pegar em algo começado, nem sequer numa ideia esboçada e ainda por começar, acabei por não escrever nada. Esta solução foi a melhor? Sinto-me de consciência tranquila? Não. E, apesar disso, sei que voltarei a usar esta desculpa inúmeras vezes, nas mais variadas situações. Não vou fazer isto, porque tenho aquilo mais importante para fazer. E acabo por não fazer nenhuma das duas.

Há duas coisas na escrita que me assustam. Uma é não saber nada do que vai acontecer quando começo a escrever uma história. É que os meus contos já têm uma certa tendência para neles não acontecer grande coisa, não haver propriamente um fim. E se começo sem rumo, acho que o risco de a coisa sair mal é muito maior. A outra é saber demasiado da história que estou a escrever. É-me muito difícil escrever quando já sei o que vai acontecer no fim ou nas próximas cenas. É como estar a ver um filme e ter alguém ao lado a dizer-me sempre o que vai acontecer a seguir. Se o que vem a seguir não me agrada, fico chateado porque já sei que a parte boa em que estou não vai durar. Se o que vem a seguir é bom, fico com ansiedade de lá chegar e só quero despachar esta parte chata. E é muito difícil encontrar um equilíbrio de informação quando estamos a escrever. Se começamos a fazer um plano da acção, acabamos por ter todo o esqueleto da narrativa, a que falta só a carne. Ou seja, já temos o modelo, só temos de o encher. Encher chouriços é aborrecido. A escrita nunca me é prazerosa, mas também não há necessidade de fazer dela um martírio. Por outro lado, se não se faz plano nenhum, é muito mais fácil cometer erros de lógica e verosimilhança na acção, no comportamento das personagens, etc. O meio termo é, para mim, o ideal. O problema é atingi-lo e não o ultrapassar.

Claro que tudo isto tem muito a ver com o facto de eu ser: 1) um preguiçoso do caralho, excepto quando se trata de escamotear as razões pelas quais não escrevo; 2) um perfeccionista das condições de escrita, ainda mais do que da escrita em si.

Published
Categorized as Escrita

Por Gonçalo Mira

Editor da revista Mamute. Crítico literário no Público. Podcaster em hibernação.