Uma piada que não está a ter piada (2)

Li mais umas páginas de A Piada Infinita. Benevolente, mas ao mesmo tempo triste. Triste porque queria mesmo ler este livro e queria mesmo lê-lo em português, porque sei que no inglês vou tropeçar muitas vezes em partes mais complicadas. O problema é que estou a tropeçar muitas vezes na tradução portuguesa. E em partes que não são particularmente complicadas.

Pronto, é verdade que não é fácil traduzir a forma que o narrador utiliza para falar da mãe, “the Moms,” mas optar por “mã” soa só a deficiente. Ainda assim, perdoo. Avanço.

A cena que se apresenta é uma memória de Hal Incandenza em criança. Aparece no jardim, onde estão a sua “mã” e o seu irmão Orin. Hal aparece a chorar, trazendo uma coisa bolorenta na mão. Diz à mãe que comeu aquilo. E a mãe (p. 18):

aproximou-se para pegar no que o seu bebé tinha na mão — como tantas vezes havia feito com lenços muito usados, caramelos sujos ou pastilhas elásticas já mascadas em tantas salas de cinema, aeroportos, assentos traseiros de carros ou salões de torneios?

Eu sei que sou picuinhas, mas aquele ponto de interrogação no final fez-me confusão. Não estava a fazer muito sentido. Então fui ver o original, em que a mãe:

reached to take whatever her baby held out — as in how many used heavy Kleenex, spit-back candies, wads of chewed-out gum in how many theatres, airports, backseats, tournament lounges?

(Os sublinhados são meus.) A tradução que fizeram faria sentido se substituíssem o ponto de interrogação por um ponto final. Mas aí eu iria reclamar que estavam a alterar coisas desnecessárias. Então, quase bem, mantiveram o ponto de interrogação, mas não tiveram a astúcia de perceber que não basta colocar um ponto de interrogação no final para a frase parecer interrogativa. É preciso mais qualquer coisa. É preciso que aqueles “how many” sejam traduzidos não por “tantas” mas por “quantas.” Mas se calhar estou só a ser picuinhas.

Tal como pode ser picuinhas achar que se desvirtua bastante o discurso de Hal quando ele diz, na página 19, coisas como “I bet I’ve read everything you’ve read” ou “Please don’t think I don’t care” ou “Please don’t worry” e os tradutores traduzem por “Aposto que li tudo o que os senhores professores leram” e “Peço-lhes o favor de não pensarem que não me importo” e “Façam o favor de não se preocuparem.” Sim, aceitemos que sou picuinhas.

Tal como sou picuinhas ao reparar numa falha — por distracção? — que acontece na página 20. Hal Incandenza está a ter um ataque em frente ao deões. Já o deitaram no chão. E ele diz:

— Sou o que veem e ouvem.
Sirenes ao longe. Um golpe de luta livre brutal. Figuras à porta. Uma jovem hispânica tapa a boca com a mão enquanto observa.
— Não sou — digo.

Estranhei a contradição. Afinal é ou não é? Mas, ei!, ele está a ter um ataque! Perdeu o juízo. Já não sabe o que diz. Só que na versão original ele diz “I am not what you see and hear.” E culmina repetindo “I’m not.” Mas, vá lá, eu perdoo a distracção. Provavelmente o tradutor não reparou naquele “not” e achou que era uma contradição própria de quem está a ter um ataque. Admitamos tudo isso e perdoemos.

O que não admito, e não acredito que haja muita gente que não concorde comigo, é que os tradutores acrescentem ao texto frases que ele não tinha, como acontece na página 19. Hal está a falar para os deões, depois de muito tempo em que não disse nada. E começa a disparar frases sem parar. Há um primeiro parágrafo de discurso directo e depois um segundo. Na transição de um para o outro não há qualquer intervenção do narrador. No original, a coisa é assim:

‘(…) My instincts concerning syntax and mechanics are better than your own, I can tell, with due respect.
‘But it transcends the mechanics. I’m not a machine. (…)’

Talvez eu dê demasiada importância à literatura. Não discuto. A verdade é que fiquei chocado quando vi aquilo, porque o que aparece na tradução portuguesa é:

— (…) Os meus instintos sintáticos e mecânicos são melhores que os vossos. Digo isto com o devido respeito.
Faço uma pausa, antes de prosseguir:
— Mas transcendem a mecânica. Não sou uma máquina.

Suponhamos que aceitamos erros menores. Suponhamos que aceitamos a perda da oralidade. A troca de sotaque por gesto. A troca de desportista por jerico. Isso tudo. Aceitamos tudo. Tudo, excepto acrescentarem coisas ao texto que ele não tinha. Isto, lamento imenso, é inaceitável.

Por Gonçalo Mira

Editor da revista Mamute. Crítico literário no Público. Podcaster em hibernação.